Thursday, April 13, 2017

DESJEJUM

Semana santa
e eu insana 
já bebi todo o vinho de sua boca

uma ceia farta
em meus seios rosados
te ofereci como hóstia
na comunhão de nossos pecados
rasgados no dente

porque queria sangrar a carne
e comê-la assim mal passada

cru o desejo é aguardente
queria que queimasse
descesse assim a vida 
quente & sem nenhum deus

sem nenhum adeus depois do ato
e após o ápice do grande espetáculo
fosse o meu gosto em tua boca
o teu salmo
o teu álamo de amor 
forrando o sábado

(de aleluias dos orgasmos
explodindo no céu do meu ventre)

e a lei de nossos corpos 
uma ecumênica liturgia de ressurreição.

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(Rai Blue)



Sunday, January 29, 2017

SELVAGENS VERMELHOS

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Guarita dentro da relva
no ventre nu
repousa teu selvagem cavalo
enquanto a noite pélvica
contrai devagar

a maciez dos campos vaginais
massageia o teu bicho que dormia

te alicio
me alisas
a mucosa esquenta
tinta e rosè

e então cavalgamos 
até o amanhecer
o róseo escuro e úmido 
 dos campos de centelhas

pingamos fogo
queimamos a relva

e o dia desperta
com um rio nos arrastando pra longe

a terra treme tácita e nômade
e orquídeas eretas
brotam dos morros e seus (an)seios
ejaculando selvagens vermelhos.

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(RaiBlue)

Imagem: Brooke Shaden.

DESAPEGO


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Cada vez mais budista
me desfaço do desejo 
(de não te querer).
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(RaiBlue)

QUANDO SE PERDE NO AZUL





Qual a cor desse ruído
tingindo o silêncio de memórias
tingindo a memória do silêncio
que havia se esquecido de lembrar?

O que fazer com tantas cores
quando os olhos daltônicos do tempo
vendam os sonhos tintos
que escorrem no rosto anêmico
da desesperança?

Mas ainda resta
uma vontade cega 
de encontrar o azul do que não se acaba
do que não se apaga

nem com cachaça
nem pelo branco dos cabelos tingidos
pelo tempo que nunca se esquece
de marcar o tempo

o tempo que só se atrasa quando se perde no azul.
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NÁUTICO SUSSURRO

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Tens o membro da palavra
quando me penetras
ejaculas rimas pélvicas
nos becos de minha baixada

grafitas um poema molhado
na parede uterina do poema
enquanto grito teu nome nas entrelinhas
tu me alinhas ao teu ereto condado

e eu me retraio
me traio
atraio a lua em pleno dia

tu és o sol do meu luau decorado
de poesia re(x)citada
sem pausa

cem espasmos por palavra
entre tuas mãos meu sussurro náutico

o verso final boiando em nossas águas
em nossa (c)alma 
a cama agora é um mar sem onda
uma canção pra ninar nossos pássaros.

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(RaiBlue)

LÍQUIDA



Escavava o chão desse sertão que sou
Só pra beber algum gota de vida 
E me salvar de morrer sedenta
De ser coisa ida sem importar cheganças

Queria ser água que brota apenas mansa
E correr menina sem saber contar ainda
Senão da beira que a sustenta e nina
Berço do teu sonho de liberdade

E assim líquida quebraria a pedra
E me faria caminho curvoso (sem a reta castidade)
Um barco silencioso: casa quieta

Fincaria o tempo na impermanência
No que em mim está sempre escorrendo
Para sempre agora sendo.
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(Rai Blue)

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* Imagem: Jialu DevianArt

...


Olhos que são favos de mel
doçura (c)alma,mantraimagem
te pronuncio no arco(da)íris.

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(RaiBlue)

TUA PASÁRGADA

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Vou ilhar em teu Pacífico
Esquentar tuas águas silenciosas
Com o meu corpo em prosa 
E a poesia dos meus abismos

Navegar é tão impreciso
Pro meu barco feito de papel (laminado) 
Me corto a cada onda quando não estou contigo
Com um verso de Ginsberg entre a proa e o vento

Os dias sem teu mar morrem antes de nascer
Abortam o barco que chegaria nas areias alvas
Que roubei do tempo pra eternizar-me tua pasárgada

Vem ser meu idílio e meu etílico silêncio depois do amor
Rouba-me a sensatez e me embriaga 
Traga em teu corpo todo mar de Sophia como estrada. 
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(Rai Blue)
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* Imagem: Brooke Shaden.

SILÊNCIO FARPADO


Não havia nenhum disk socorro
incomunicável teu corpo
era um chip descartável
bloqueado
baqueado
um sistema que não engrenava

gangrenas por todo lado
a pele queria ser trocada
qualquer coisa alada 
emergia do estrago

preso havia um pássaro
dentro daquele silêncio farpado

entre os arames
ainda havia ar
ames então - eu dizia
mesmo que doa teu pulmão

o amor haveria de vencer as grades
mesmo que depois morresse de hemorragia.

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(RaiBlue)

...


O que é o tempo
quando a ampulheta vira sobre a cama
que vira praia areia infinito?
.

(RaiBlue)

Monday, January 23, 2017

ORIGAMIS DE EUTEAMOS




Eu arrancaria minha lua em peixes 
pra enfeitar teu fundo de céu
e me juntar ao teu sol em capricórnio
com meus sonhos lumiados
e o meu mar pisciano

mudaria meus planos
de ser tão água
pisaria em tua terra alada
como em um ninho feito de heras
que se enraízam no peito
e se enrolam entre as pernas

e crescem nas bocas
nas línguas que se reconhecem
nas palavras que orbitam a distância
e dançam em nossa carne cigana

seus olhos são miçangas de noite
enfeitando o céu do meu pensamento
pássaros mergulham no silêncio
só pra te encontrar nos batimentos cardíacos
do teu primeiro voo
de renascimento

- (trans)bordo com origamis de euteamos
o meio da noite

recebo teu sol de corpo inteiro.
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(Rai Blue)

FEITIÇO







Tu tens a trama premeditada
que eu adivinho no que me olhas
é pura malícia quando me invade
paralisando meu despreparo
usa de encanto enquanto me prostras
a estar entregue à tua pilhagem
é nesse feitiço que eu reconheço
se assim foi desde o começo
se agora me expõe ao meio
e de em diante, não tem mais fim.
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(Nico Leite)


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*Presente lindo do meu  amado amigo Nico Leite. 

Monday, November 28, 2016

NOS BECOS COM BACO


O corpo
essa muda
que muda o tempo todo

não se afaste tanto 
quando vier já serei outro

a cama é a mesma
mas a dama não está mais presa
ao fantasma que algemava suas mãos

(desaprendeu que dor é gozo)
não sou mais o rosto do seu porta-retrato
sou um nu artístico exposto
como um ato político

um grito
um íntimo sussurro
no meio da tarde

sou qualquer coisa que invade
vadia poesia
perambulando nua
por toda rua
de sinais abertos

quero meu verso nas bocas
traficado
trancafiado
(em outra língua)

vendo fiado
meu poema 
(concreto)

hoje eu quero escrever a quatro mãos
nos becos
com Baco
e o meu sapato vermelho
(pisando em você).

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(RaiBlue)

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Art by: Vania Yanusic

Sunday, November 27, 2016

NA CONVULSÃO DAS ÁGUAS




De tanto (a)mar
me tornei onda
plena e vândala
te arrastando
pro fundo

lá onde os corais vermelhos
dos meus pelos
eram vitrais acesos de fogo
incendiando
tuas espumas contidas

sempre prestes a explodir
na convulsão das águas

depois da onda
te dava a calma da minha concha
onde teu mastro 
amolecido e ancorado 
descansava 
até a próxima viagem

o mar selvagem dormia silente
entre os recifes dos nossos corpos
até que a ressaca explodisse de novo

e toda noite fôssemos
uma ilha perdida do continente.


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(RaiBlue)
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Obrigada pela linda inspiração! <3 span="">

RÈVEILLON ANTECIPADO



Brotaram mais flores 
depois da tarde de amores
que você semeou em minha relva

e até a selva lá fora
agora
já não me importa

a porta continua encostada
e a renda perfumada 
pra te enredar 
na pele íntima e rosa
das mucosas

a qualquer hora
pode ser feita a colheita
só não perca 
a primavera 
que ainda resta

aproveite (outros sábados)
as f(r)estas do meu corpo
e entre

( como um réveillon antecipado ).
.
(RaiBlue)

NO PALCO DA CAMA




Toda sua poesia escorria do corpo
palavras suavam
soavam em cada movimento
como um blues antigo
brotando domingos
dos SOLrisos queimando
meus olhos ardidos de tanto vapor

hipnotizada
minha alma gritava
num silêncio amante gemendo

( escondendo o gozo
a quentura do gosto
o sal do mar que dele jorrava
meu unguento)

ele exposto
eu disposta
lambia com os olhos
seus ossos, músculos e alma

p
i
n
g
a
v
a
maltes & licores

lia cores 
no preto & branco de sua roupa

despia todas
uma a uma

até que nus
(ele & as palavras)
me amas(sa)sem

como um passo de dança
no palco da cama.

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(RaiBlue)

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( o poeta que dança com as palavras)

com açucar & afeto
Blue <3 span="">

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Pintura : Gianny Franken

Wednesday, November 23, 2016

ENQUANTO A CHUVA CAI


O hálito estrelado da noite
O hábito de te beijar dentro desse escuro
Que nos habita

O que somos nunca importou
Nós (e nossos enigmas)
Dançamos em nossa cama

E é exatamente esse corpo quente 
(De quem ama sem saber por que) 
Que nos desertos faz chover

E até parece que nesse instante breve
Somos uma vague nouvelle
À beira do Sena

Uma cena de Truffaut no drive -in da carne
Exposta ao triunfo das pupilas e seus arcos
Dilatados ... delatando tudo...

Chovemos sobre a cidade que criamos
E nos queimamos no interior
Onde a lua é uma rede
Para que o amor se deite
E goze estrelas entre dentes

Estridentes são os sons do amor 
(Es)feras que se soltam e correm livres
Pelo universo nu dos corpos.

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(Rai Blue).



" Enquanto a chuva cai" - Art by: Jorge Gouvea