Sunday, January 26, 2020


HOJE EU SÓ QUERIA UM COPO DE MAR

Entre mim e o mar
Existe a concha
Esse encaixe perfeito do meu sexo
Búzio molhado da mesma substância

Quando me afasto
Ânsia
Ansiolíticos
E esse prédio de onde avisto
O caos enfeitado de domingo

A cidade e seus cadeados
Sonhos castrados
Somos ensurdecidos
Pela velocidade do agora
Por essa vida provisória
A cortar os nossos sentidos

Navalha
Essa vida que mata
Essa morte que vive em cada esquina
Esse corpo proibido de sentir

Se a vida é essa cachaça
Com cirrose à vista
( e cem prestações com Deus)
Hoje eu só queria um copo de mar
Sem terra à vista
( e sem prazo de validade)

(Rai Blue)

* Arte visual: Brooke Shaden 





BEIJOS MOLHADOS DE ILHA

Acordei com o cheiro de setembro
no corpo
Arruda me banhava de novo
Pra bendizer o tempo
Escorrendo
No templo aberto da minha pele crua

Há chá natural
Achados naturais das primaveras
Que se aproximam sempre
Fazendo um caminho de flores
Sobre os fósseis roxos
Dos socos da aridez desse inverno
Sem sua boca a molhar minhas terras

Minhas cavernas à tua espera
Agora brotam heras
O verde cresce no meio do róseo tatame
A primavera se aproxima com teu nome
Pintando de pássaros o silêncio
Enchendo nossas línguas de asas

Acordo à beira-mar de teus músculos
Entre algas e algumas trilhas
Do tempo que vem úmido
Amolecendo o coração das coisas

Bebo a erva doce da manhã
Como uma promessa de sol
E beijos molhados de ilha...
.
(Rai Blue)









Não sei se chovia mais
Aqui dentro
Ou lá fora

Eu alagava
Afundava
Sem ninguém perceber

Desaparecer era aconchegante
Não ter que ser nada além de mim

( Rai Blue)


RENASCIMENTO

É preciso uma erosão
Na terra do coração
Um enxerto na pele
Músculo e mágoas

Atravessar a guerra do corpo a corpo
Resgatar a alma nesse vazio louco
Da multidão

Ser templo e silêncio

Depois das bombas
Meu corpo-hiroshima
Vira um campo ( não mais minado)
 De girassóis pra todo lado

Renasço
Há um sol todo dia nascendo
Nas manhãs dos meus olhos
Com vistas pro (a)mar.

(Rai Blue) 💙
.
* inspirado no lindo espetáculo " 5 segundos" .
* imagem : Brooke Shaden.

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AYAHUASCA  NATURAL

Como o beijo Blue de Ana
eu sinto tua boca
tocar-me
não sei se é uma sonata de Beethoven
ou um prelúdio de Bach

( um prelúdio no bar com todos os gostos que há)

tua língua 
são borboletas dançando
no meu clitóris

eu te imploro que me explore
(além do windows)
voe suave e profundo
e lá no fundo mergulhe
com todas as tuas palavras
jorrando mar
lambendo meu calmo rio 
com toda fúria

(r)iremos em ondas
ayahusasca natural

deitados em um cais no alto- mar
estaremos nós 
vestidos de toda nudez
despidos de todas as máscaras.

(Rai Blue)


*Pintura do alemão Senior Coconut


LAVA LEVE
(Des)Invento um cais
Vento
Vento
vento

Dissolvo
Sorvo
Do osso o tutano
Poeira, cinzas

Finalmente amo
Toco-te o impalpável

Os teus medos se banhando em meus olhos
Rio e fogo te afagando
Te afogando na quentura
De minhas águas

Minha alma em erupção
Lava leve
Te levando pra longe de si

É só dentro de mim que tu és.
Qualquer coisa fora é fuga
Farsa
Ferrugem

Quero-te vertigem e viagem
( Rai Blue)

* Pintura do alemão Senior Coconut

Sunday, June 09, 2019



Os passos
A poça
A moça molhada de inverno
Que escorre nas ruas do outono
Vilarejos inteiros
Indo por água abaixo
Marisa no ouvido
Pra nao esquecer do tempo
Das frutas nos quintais
A esperança são acordes musicais
dançando na chuva
" Singing in the rain"
Molhando os pés na vida
Molhando os pés da vida
Que brinca no meio do caos
O cais flutua onde a imaginação pula
de poça em poça
Descalça a vida pode ser ferida
Ou ser uma criança que brinca
No meio da tempestade
Já escutou a chuva?
Ouça
O tempo dança em teu ouvido
.
(Rai Blue)


"O mundo não acaba com um estampido. O mundo acaba com um gemido." (T.S. Eliot ) 


Assim como
O corpo treme
Quando a chuva molha
A pele da noite
Despidos
Eu e
O escuro
Me procuro
Em alguma palavra
Permeável
Que me lembra
Sua boca
O seu beijo
É um poema
Tinto
Tátil
E febril
Que aquece
Minha carne nua
Que roça a rede
E ri

Cio
Como um segredo
Que escapa
O gemido é um relâmpago
Clareando o quarto ( do meu desejo) .

 ( Rai Blue)

Wednesday, June 05, 2019







AMAR(ELO) 



Havia nele tanto sal, tanto sol

que lhe sobrava verão 
para todos os períodos de hibernação
 inevitáveis ao coração de poeta. 

Sabia da dor e do amor  
como eles se con(fundiam)
 e iam cosendo seus dias 
numa delicada tapeçaria do tempo e suas viagens

Trazia paisagens no corpo e música por dentro
 A palavra que transmutava uma coisa n'outra
 A língua sedenta por outras
A vontade de dizer o não dito
 a bendita novidade que uma palavra inaugurava 
num menino que acabava de nascer

 Assim ele veio, todo prosa, 
com a poesia estendida em seu avesso
como um segredo que nem ele sabia

.já era mesmo antes de ser...
assim como se pari versos de um espanto 
cujo tamanho é bem maior do que as palavras...



Ele não cabia em si
 assim como o amor..
transbordava...



(Rai Blue)


Os passos 
das palavras
que não são nada
sem os sentidos
que embalam 
tom sobre tom
o sOM universal

Tudo é movimento

O sim
O não

O talvez de um momento

o silêncio
as contrações
o grito

e o poema é parido
sem consentimento
com sentimento
e (r)existência

qualquer mínima centelha de vida
acende um poema inteiro.
.
(Rai Blue)
Navegar por nuvens 
Caindo sobre os ombros do mundo

Dissolver o peso das coisas
No gosto da manhã 
Batida com mamão e mel

Mastigar o tempo devagar 
Divagar sob o silêncio 
Antes de penetrar o caos urbano

Uma solidão coletiva marcha
Sem saber pra onde 
Tudo nos consome

Some
Some 
Me sem tu

E eu aqui comigo
Um deserto cheio de girassóis 
Um silêncio poético atravessando
O coração das coisas

Da janela avisto
A vida e a morte caminhando de mãos dadas nas calçadas

Sorriu
Sou
Rio
E palavra 
Navegando nas águas do meu espírito.


( Rai Blue)

Sunday, June 02, 2019



Tudo cresce em silêncio
Tântrica
Mente

Tudo ausente 
E enche a casa
De um vazio cor de inverno

O outono morno ficou
Nas folhas do seu caderno
Onde escrevi os sonhos de um verão 
Que ainda verei
Em alguma página do tempo

Incenso o meu coração 
Sou um templo 

A Mente é um mantra sem métrica
Um verso branco me atravessa

Sou corpo à vela
Noite adentro
Comentários
(Rai Blue)

Comentários

É junho
E a fogueira que já ardia no corpo 
Agora é festa 
Não mais inquisição

Queimei a monotonia dos dias sem cor
Estendi as bandeirolas nas ruas do peito
Para o tempo brincar no azul da eternidade

À noite os fogos são artifícios
Para o amor correr o risco
Atravessar o céu sem paraquedas 
Porque se sabe Deus Cupido

A lua entre as nuvens costura 
Uma renda amarela
E ele se deita embebido
Pelo licor da noite que escorre 
Das bocas de todos os amantes

Nos olhos lareiras e inverno
Tempo aberto no corpo
Sem previsão de chuva

Em chamas 
A carne é cama
A alma nirvana

O êxtase é um balão a explodir 
Lava humana
Leve 
&
Livre de culpas

.
(Rai Blue)

Wednesday, May 29, 2019


NA RUA EM QUE TE VI
Manhãs de hortelã
o tempo acorda verdinho
a cor de um carinho
guardado no bolso de um jeans antigo

no vapor do chá
as nuvens do pensamento
se dissolvem
há um mantra novo
no coração da casa
no corpo que é asa
e ninho

Tudo faz sentido
mesmo sem saber
o sentido a seguir

nada contido
tudo é fluir

uma canção diz 
" pra sempre será"
e eu não duvido
desse agora infinito

tudo cabe no segundo que espera
pela fresta da janela
o horizonte
e o sol nascendo no meu peito
pra se pôr
nesse mar de amor
que transbordou
na rua em que te vi....
.
(Rai Blue)

Tuesday, May 28, 2019


Há uma ilha ancorada em minha pele
um vento que sopra entre os pelos uma saudade
apelos de mar contornando a carne
um cheiro que arrebenta (n)a minha paz

quem diz que tudo que do corpo vem é fugaz
não sabe do que o corpo cala
na calada de uma noite que não passa
na cor da minha boca lilás

é vicio
é viço
é sumo de prazer
é sumiço da razão

amor tatuado nos poros abertos para o mundo
Bach um prelúdio

imortal
quando num outro corpo
orquestra

é festa
é reza
  ritual...

(RaiBlue, em 24.04.2014, Salvador-Ba)