Arredores de mim

"Não o amor, mas os arredores que vale a pena..." Eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro. (Clarice Lispector)

Sunday, December 13, 2009

Livre pensar[ Não pensar]...



Entre o ser e o estar fica o passo
Por um triz, atrás do pulo
A essência livre gritando
Destituindo a razão do seu trono

 Se o pensar é asa
Como pode impedir o vôo?

Paradoxo
O homem vendado pela luz da razão
Enxerga-se sombra
Do que poderia ser
E mente [demente]
Na contramão de si mesmo
 E a verdade é um novelo
Para os dias inventados
Quando esquece-se de pensar
 E vive-se...

(RaiBlue)



Amor talha
Mortalha sobre a pele nua
Vermelha vertigem
Sob ventos que sopram lilases!

(RaiBlue)

Tuesday, December 01, 2009

Deserto das ondas



Saca um soco no seco?
A música arranhando o estômago
A ânsia um Tâmisa represado
Um barco sem mar...?

O chão da casa ainda tremulando
Nas brechas da persiana a noite insana
Uma aurora guardada sob o tapete
A dança de um instante maior que o infinito

E a faca amolada do dia seguinte
Cortando o sonho ainda molhado
Sangrando o gozo ainda nos lábios
Ácido prazer de um deus sádico!

E os dentes mastigando a estupidez
De ser devorada pelas palavras
Que em tua boca bebi
E na minha sussurrastes ventos[contra-alísios]

[E agora um mar sem fundo]
Espirais de búzios na ilha do silêncio
E um poema bêbado e bruto
Engolindo as águas da insensatez
Vazio ancorado no deserto das ondas...

(RaiBlue)

Wednesday, November 25, 2009

Um golpe a galope de mil Pégasus!



A rede entre sobras de sol
Numa manhã que nem me lembro
Vazou o mar das paredes
E inundou o coração que pensava
Ser naufragar apenas um poema
Comboios de cem sentidos atravessando
A completa incompletude dos ventos
O verso uivando faminto
Bebendo o tempo e suas tempestades
Devorando a carne exposta à lua
Que grita num silêncio nu...

E eu puta que o pari entre os dedos
Marginal pelos becos da minha sede
Deixo-o que me masturbe
Dando-lhe as mãos e a língua do meu amante
Abro a glande da distância que some
No pulsar de orgasmos de múltiplos topázios!
Falo navegando espumas em minha caverna
Divino Eros a trazer a luz antiplatônica
Ereto verso penetra-me por trás e sangra
Como um golpe a galope de mil Pégasus
Rasgando a certeza de que já havia esquecido...

Quem es_finge ?
Devora-me o poema enquanto o corpo treme
Não decifro se mito ou minto
Cifro o teu nome no meu grito
Como um eclipse raro
E me abs_traio neste instante pleno
[sem culpas luvas ou lupas]
Vôo cego num incógnito veneno ...

(RaiBlue)

Thursday, November 19, 2009

Saraivadas e en_cantos noturnos...




 
Foi uma noite de mar sobre mar
Saveiros perdidos no candeeiro dos olhos
A alma cantando no terreiro dos corpos
Nossa divindade transpirando um amor profano
Clamando Aruanda Aruanda Aruanda!
E Araúnas nós fomos sobre montes [quase santos]
Auras azuis e um rubro acalanto
Asas vento fogo e todos os quebrantos
No ritual dos barcos desalinhando o horizonte!

E já não éramos nós quando um no outro se espraiou
Éramos uma entidade desconhecida girando pela casa
Que batucava por toda nossa via náutica
Num cortejo de poros exalando dendê
Pimenta no reino do bem querer!
E no borbulhar das águas vivas
Deixávamo-[nus] queimar como cálidas oferendas
Lançadas ao mar de uma noite plena
Na respiração o tambor do desejo rodopiando
Infl(amamos!) [e o axé escorre por todos os cantos!]

A_manhã_sendo eterno hoje
Sem rimas nem teoremas
Pura exaltação no remo das línguas
Nos virando pelo avesso
Num verso aceso dentro da boca
Vela pro nosso orixá!

(RaiBlue)

Tuesday, November 17, 2009

Dançando com Hamlet



Prazeres alucin(antes)
antes antes antes
de amanhã virar passado
todas as manhas e manhãs te darei
no hoje que me despe (pra ti)
e  depois  pois
deixa o dia dizer
no que in_vento
virá...
verá o tempo tirar sua máscara
no intervalo
entre um ato e outro
danço com Hamlet
essa tragicomédia
de ser deus
e ser cortesã
dos teus(meus) desejos...

No palco da vida tudo é personagem
é nas coxias que te deixo ver minha face [ e minhas coxas]
Diz face
O que o disfarce não diz
Des_faz o que calo
Num ato  (há)final??!

(RaiBlue)


Monday, November 16, 2009

Por trás da página, uma noite sem neblinas...





Foi quase um suicídio, eu sei. Acordei com Janis ecoando no meu corpo trêmulo: ‘ Trust me, Trust Me!’... Seria um jeito de me fazer desistir do pulo?  A fumaça ainda estava ali, nas cinzas que tinham o hálito quente dele, depois de nossa luta corporal... Sua boca ainda estava acesa em minha carne, onde tatuou benditas palavras obscenas que rasgaram todo resto de pudor que tentava resistir e algemar-me . Agora estava ali, sem saber o que fazia com aquela liberdade de dizer, de sentir...Ele extraíra uma outra mulher de mim , aquela que só tinha coragem de existir naquilo que escrevia. Mas, depois que escrevi no corpo dele, o papel já não me saciava mais. Nenhuma linha seria melhor do que seus pelos, onde minha língua se enrolava e se perdia numa poesia vertiginosa e intraduzível. Seus olhos acendiam o néon vermelho do meu corpo azul, e nossas auras se dissolviam num suor púrpura, quase vinho, que bebíamos como se fosse nosso próprio sangue, uma transfusão que nos salvaria da anêmica vida de antes... Renascíamos naquela cidade construída nas ruínas do meu quarto amarelado, que apenas em uma noite ele pintara de verde, quase mar, quase eu agora, mergulhada nas ondas entre minhas pernas sobre a cama desforrada. Seu grito ainda ecoava dentro de minha boca, engoli cada palavra molhada em minha saliva, foi o ‘eu te amo’ mais bonito que já ouvi! Ele me ensinara a pular o muro e descobrira um país no meu deserto. Deu-me de beber no seu corpo e despertou em mim a felina, que sugou-lhe todo o leite que  me traria a vida de volta, na taça de uma noite sem neblinas...
Não vi a hora em que se foi, era como se tivesse me dopado. Acordei com seu gosto aceso na boca, como o último cigarro de menta que traguei... E a primeira saudade tinha um cheirinho de hortelã...
Chegou e saiu como um gato, sem deixar vestígios. Contudo, agora, eu não ficaria mais em cima do muro, como sempre fiquei, esperando a vida chegar...
Ele ensinara-me o pulo, agora era eu quem iria ao encontro da vida...
Procurei o CD da Janis e liguei o som bem alto! E minha voz se misturou à dela... Finalmente eu acreditava, Janis, eu acreditava!
E no pulso, no lugar do corte, havia crescido asas...
Virei o caos pelo avesso,... Havia mar, de certo, havia mar do outro lado...

(RaiBlue)


Mar em fúria!



I
 
Deixes um pedaço do mar pra mim.
Eu pertenço ao mar e do mar não te dou
Meus pedaços azuis!
Dou-te pedaços de céu
Para completares teus dias
Dou-te pedaços de ar
Para fartares tuas nuvens
Mas não mexas com meu mar
Que te racho em partes
Com minha pedra de corisco
Nas minhas pedras te lanço
Com meus ventos te espraio.

II

Dos pedaços de céu farei meu teto
Dos pedaços de ar deitarei sobre as nuvens
E te olharei de um longe tão perto
No limite onde o horizonte se estende
E o céu beija o mar
Fundindo azuis ...
E se arrrebentas entre as pedras
Tudo em mim serão ondas bravias
Céu líquido em espumas
E no marulhar de um abraço
O naufragar na correnteza
De tua e minha maresia....

(  Sérgio Bezerra & RaiBlue )

Saturday, November 14, 2009

Esfinge de sal [dade]




Abrindo abismos
Pedra por pedra
Escavando o a_mar
Elo no sol nascendo
Nesse vermelho de Matisse
Matizes de silêncio gemendo
Que o mar traduz em sua imagem
[Molhando a noite que se despede]

Tê-lo tão perto nesse longe aberto
Devorando as margens
É trans(fusão) de vontades
Acaso afogado no destino juntando os barcos
Remendando subterrâneos a_mares
Con(fundem)-se coração e horizonte
Corpos escaldantes nos equa_dores quereres em transe...

Te deitas em meu corpo como uma paisagem
E nesta praia nua que me veste a miragem gruda no deserto da pele
Dunas estremecem nesse a_manhã_ser [que nem dormiu]
Catando o e_terno na viagem de kitaro
Ao acorde raro do teu grito dentro da minha boca!


Sem_ti_ mental
Penso se o que sinto existe
Existo porque sinto [penso]
E jorro sobre o rochedo da dúvida
Toda a minha fúria
E a noite chega felina
Lambendo a esfinge de sal [dade]...

(RaiBlue)